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Livro relembra trajetória do ex-governador amparense

O jornal Estado de Minas, publicou uma matéria sobre o livro que conta a história de Hélio de Carvalho Garcia que nasceu em Santo Antônio do Amparo em 16 de março de 1931. O ilustre amparense foi vice-governador de 1983 a 1984 e governador duas vezes: a primeira quando Tancredo Neves, de quem era vice, renunciou, entre 1984 e 1985, e a segunda quando foi eleito para o mandato de 1991 a 1994. Foi ainda prefeito de Belo Horizonte. No dia de sua segunda posse, em 1991, a Caixa Econômica de Minas Gerais, a Minas Caixa, de quem fora presidente no governo Aureliano Chaves, teve sua liquidação decretada pelo Banco Central do Brasil.

 

Reprodução Estado de Minas: postado em 15/06/2015 06:00 / atualizado em 15/06/2015 07:58 por Bertha Maakaroun

 

Ele é lembrado como um dos grandes políticos mineiros ainda vivos, embora, na última década, esteja relegado ao ostracismo, principalmente pela doença. Aos 84 anos, cardíaco, sem condições físicas e com lapsos de memória cada vez mais profundos, a velha raposa estará em sua casa, no Bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, no momento em que um grupo de 18 ex-correligionários e jornalistas lançarão hoje, às 19h no Museu Inimá de Paula, o livro Hélio Garcia em poucas palavras. Um pouco da trajetória e algumas das tiradas desse político estão lá relatadas.

Falava pouco. Preferia o conchavo à exposição pública: “Política deve ser feita à noite, de chapéu e sobretudo, dentro de um táxi em movimento”, repetia. Tocador de grandes obras, sempre concluía os governos com a popularidade em alta e deixando o imaginário popular correndo solto. Namorado de Marta Rocha? Não confirmava nem desmentia. “Pergunta pra dona Marta.” Diante da insistência, repetia: “Pergunta pra dona Marta”.

O jornalista José Geraldo Bandeira de Melo assim descreve o primeiro contato que teve com Hélio Garcia. Magalhães Pinto, então governador, vencera Tancredo Neves em 1960, mas não reunia maioria na Assembleia Legislativa. A oposição forte era exercida pelo PSD, PTB e PR. Numa madrugada, após conceder uma coletiva, Magalhães chamou Bandeira e lhe disse: “Olha, vou virar maioria em outubro. Quero eleger pelo menos 30 deputados. Peço a você para ajudar um candidato meu amigo, chamado Hélio Garcia. Ele parece meio caipira, usa paletó de uma cor e calça de outra, mas vai longe. Dê uma força”. Hélio estava na sala ao lado. “Então vi que de fato parecia homem do interior com roupa da capital. Ganhou a eleição, foi líder de Magalhães na Assembleia Legislativa, secretário de Interior, tudo em menos de três anos”, resume Bandeira.

O livro relembra muitas passagens da sucessão estadual de 1982. Aquela foi a primeira eleição direta ao governo de Minas depois do longo ciclo autoritário-militar, dentro de uma reabertura “lenta e gradual”. Encabeçando a chapa, Tancredo Neves e o vice Hélio – ambos da oposição e filiados ao PMDB – derrotaram o engenheiro do PDS Eliseu Resende, que havia sido ministro dos Transportes do governo militar João Figueiredo. “Eliseu era articulado com grandes empreiteiras nacionais, num tempo em que a Justiça Eleitoral não exercia praticamente qualquer controle”, avalia o ex-secretário no governo de Hélio e ex-deputado federal Roberto Brant. “Uma coisa é certa: a presença dele como vice-governador na chapa de Tancredo e seu papel na coordenação da campanha foram fatores decisivos nessa vitória conquistada a duras penas”, avalia Brant.

SEM JULGAMENTOS

Tancredo e Hélio tiveram 2,66 milhões de votos, 243 mil a mais do que Eliseu. Logo depois de empossado, Tancredo nomeou Hélio Garcia para a Prefeitura de Belo Horizonte. As eleições diretas municipais só seriam restabelecidas em 1986. Hélio, então, passou a acumular o cargo de vice-governador e de prefeito. “Foi uma gestão extremamente feliz. Além de retomada e concluída a canalização do Arrudas, cujo transbordamento, em janeiro de 1983, causara muitas mortes, foi realizado o chamado Complexo da Lagoinha, concluídas as avenidas Cristiano Machado e Vilarinho, a Via do Minério e outras obras menores, mas igualmente importantes”, lembra Roberto Brant. “Na prefeitura e no governo de Minas nunca falou mal dos seus antecessores nem permitiu que seus auxiliares o fizessem. Sempre dizia que o tempo faria os julgamentos necessários”, acrescenta.

A vitória ao governo de Minas foi o primeiro passo de Tancredo Neves para a campanha nacional de 1984, quando decidiu disputar o colégio eleitoral para a Presidência da República contra Paulo Maluf, do PDS, nome do regime. Tancredo percorria o país em campanha para legitimar a candidatura indireta. Em um comício em Belém do Pará, o então governador Jarbas Barbalho, que era base de apoio do governo militar, mandou a polícia recolher as bandeiras vermelhas. Texto de 1986 de Roberto Drummond republicado no livro relembra: “Figueiredo denunciou (as bandeiras) como atentatórias a isso e aquilo. Pois foi então que Hélio Garcia declarou, com vista ao comício pró-Tancredo Neves que seria realizado (e foi) na Praça da Rodoviária, em Belo Horizonte: ‘No nosso comício, teremos bandeiras brancas e pretas, azuis, verdes e amarelas, vermelhas, todas, porque não temos preconceito de cor!’”.

A forma como Hélio Garcia se relacionava com políticos se assemelhava à anedota conhecida no Brasil como o diálogo entre dois mineiros na estação de trem. Ao responder ao interlocutor que iria para Barbacena, o primeiro retrucou: “Acha que me engana? Diz isso para que eu pense que vai para Juiz de Fora. Acontece que eu sei que você vai mesmo é para Barbacena”.

Hélio Garcia pensava muito e raramente dizia o que pensava. Conta o anedotário que, certa vez, chamou os deputados estaduais Agostinho Patrus, José Ferraz e Romeu Queiroz ao Palácio das Mangabeiras. Ao recebê-los, fez um gesto enigmático com as mãos. Agostinho Patrus respondeu com os dois polegares apontados para o alto. Hélio gesticulou as mãos como se perguntasse: “Questão resolvida?”. Recebeu de volta outro gesto com o polegar de “positivo”. A conversa foi encerrada com o governador levantando os dois polegares. A rápida e incompreensível interação só confirmou um fato: sem demandas em aberto, tudo solucionado.

Com tiradas, mandava os seus recados. “Nós aqui perdemos o doutor Tancredo e ganhamos a eleição. O segredo é que nós, em Minas, temos o hábito de não mentir ao povo”, provocou Hélio, em 1985, então governador, após a vitoriosa campanha à Prefeitura de Belo Horizonte em que elegera Sérgio Ferrara (PMDB) derrotando o favorito Maurício Campos, do extinto PFL. A declaração era dirigida ao PMDB paulista, que, apesar da derrota de Fernando Henrique Cardoso (então do PMDB) à Prefeitura de São Paulo, não perdia a arrogância.

Guardava um arsenal de frases de efeito. Em 1990, assistia à briga de seus apoiadores para a formação do futuro governo, depois de se eleger novamente ao Palácio da Liberdade pelo minúsculo PRS, derrotando no segundo turno o candidato Hélio Costa, então no PRN. Saiu-se com esta quando perguntado por um repórter como resolveria as disputas em sua base de sustentação: “Início de governo é igual a caminhão de porco. No começo, eles berram. Mas é só jogar a primeira e o caminhão começar a andar que os porcos se ajeitam e ficam quietinhos”.

A imprensa, gostava por perto, conta o jornalista e ex-assessor de Hélio Garcia J.D. Vital. “É preciso sargentear na política para compreender a importância da imprensa na construção do enredo histórico do país. Hélio Garcia tinha essa percepção”, lembra Vital. Às vezes, se irritava com noticiário, mas nunca por muito tempo. “Antes, procurava ajudar o repórter a escrever uma boa matéria”, diz. Segundo Vital, alguns jornalistas consideravam Hélio Garcia uma ótima fonte: conversava muito, mas sempre em off. Dava muitas informações, mas também as tomava: “Me diga as últimas novas”. Justíssimo. A via é de mão dupla.